noite árabe

éramos dois sob a mesma imensa túnica da noite.

debaixo do traje negro, sentiu mais alguém
o que senti? o lento calor que liberavam
seus músculos de barro cozido ao sol.

de frente para os músicos, tocou mais alguém
o que toquei? a óssea melodia do cravo
nas suas costelas saltadas em bemol.

éramos mais sob a mesma imensa túnica da noite.

sob lufadas da bailarina, quis mais alguém
o que eu quis? povoar de embebidos beijos
o deserto anestésico da sua pele de sal.

à vista dos holofotes, mais alguém viu
o que eu vi? o oblíquo brilho de seus oito
olhos orientavam meu lado animal.

éramos mil noites sob a imensa mesma túnica.