noite árabe

éramos dois sob a mesma imensa túnica da noite.

debaixo do traje negro, sentiu mais alguém
o que senti? o lento calor que liberavam
seus músculos de barro cozido ao sol.

de frente para os músicos, tocou mais alguém
o que toquei? a óssea melodia do cravo
nas suas costelas saltadas em bemol.

éramos mais sob a mesma imensa túnica da noite.

sob lufadas da bailarina, quis mais alguém
o que eu quis? povoar de embebidos beijos
o deserto anestésico da sua pele de sal.

à vista dos holofotes, mais alguém viu
o que eu vi? o oblíquo brilho de seus oito
olhos orientavam meu lado animal.

éramos mil noites sob a imensa mesma túnica.

3 poemas de tony borrego

1.
entre os homens que matei para te trazer flores
havia um jardineiro,
os outros eram ocos,
ocos seus toráx, suas gargantas.
quando pensava em ti, fugindo do espanto
em minha faca crescia um girassol.

~

2.
o inimigo me cedeu um palácio,
jardins com mulheres libanesas,
teares nos quais o vento me faria uma camisa,
mas duvidei, meu amor, duvidei.

~

3.
a guerra é uma trégua que a paz propõe.
fartos os homens de comer tão juntos,
a mesa, o pão, a pátria dividiram.
se vissem como você dorme, encontrariam
sossego, fundiriam suas armas?

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Tony Borrego nasceu em 1962 em Las Tunas, Cuba. Os três poemas traduzidos foram extraídos da seção "Poemas de Palácio" do livro Ovejas y Demónios, Editorial Sanlope, 2008: La Habana, Cuba. Traduções: Mariana Campos.