a sesta

para quem quer se soltar, invento o cais
(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

eu quero sofrer a lentidão do nosso século
como quem faz a sesta extraviada no seu cabelo crespo

ser a camiseta cem por cento algodão,
e escandir as suas costas e nela estacionar a minha essência cansada

de você para você mesmo, eu quero ser uma escala

ser o silêncio em direção à sua boca
e sapatear no céu como nadam nas poças os sanhaços

e voar alto e dar corda no tempo e dar tempo aos velhos amantes
para que alcem suas bandeiras brancas e possam, como nós, levar seus veleiros aonde nunca antes

eu não quero despedidas do trapiche, mas crianças a contar os barcos que partem

assim como eu quero ser a sorte
e anunciar à fortuna o movimento dos números pares