ano novo, verão austral

a estiagem traz os pernilongos para debaixo da pele

o mormaço dá ao passado a força do menor dos imãs

de dia o pio de um bem-te-vi me anima

lavo à tarde no rio umas tigelas e anônima cantarolo um fado

na sua casa de noite eu sou o besouro contra à janela fascinado

sem leis

I.

entre criminosos e seus cúmplices
está lá, quieto, deitado, um cavalo paraplégico,
anjo renegado,
o amor.

II.

a partir de hoje, os contratos amorosos
devem ser assinados com os olhos encharcados de tinta.

mais tarde, assim, ninguém poderá dizer
o nosso acordo era outro.

a sesta

para quem quer se soltar, invento o cais
(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

eu quero sofrer a lentidão do nosso século
como quem faz a sesta extraviada no seu cabelo crespo

ser a camiseta cem por cento algodão,
e escandir as suas costas e nela estacionar a minha essência cansada

de você para você mesmo, eu quero ser uma escala

ser o silêncio em direção à sua boca
e sapatear no céu como nadam nas poças os sanhaços

e voar alto e dar corda no tempo e dar tempo aos velhos amantes
para que alcem suas bandeiras brancas e possam, como nós, levar seus veleiros aonde nunca antes

eu não quero despedidas do trapiche, mas crianças a contar os barcos que partem

assim como eu quero ser a sorte
e anunciar à fortuna o movimento dos números pares