oliverio girondo me ensina a dar laços nos cordões do sapato. o filho da puta me sacaneia e eu caio. mas ele me empresta os próprios braços e me ajuda a levantar. diz que fico linda caída no chão, que eu sou vertical demais, que tenho mais vértebras que as outras mulheres. aceito o elogio, e mesmo orgulhosa, não consigo evitar o sorriso. este, sim, é um homem, penso. um homem verdadeiro é, antes de tudo, um poeta em tempo integral. café-da-manhã é o mesmo em todas as cidades do mundo. um homem lindo cresceu menos do que eu gostaria e agora quer celebrar o nosso casamento nos modelos judaicos. quantas propostas que eu quase aceito. mas oliverio aparece outra vez e faz um discurso muito longo sobre o tipo do homem que ele permitiria que eu me envolvesse, e mesmo não possuindo direito à opnião nenhuma sobre quem escolherei esta noite, eu o escuto com atenção. ele tem ciúmes dos meus outros poetas. ele não tem coragem de confessar, e se zanga muito quando eu não sinto tanto ciúmes como ele. e vai embora. volta e bebe a minha cerveja. diz que eu devo parar de beber. eu o sorrio abraçando. nunca teremos sossego, nunca viveremos tranquilos. e seremos mais felizes do que os sossegados e os tranquilos. porque amanheceremos poetas, escovaremos os dentes e regaremos as flores poetas e amarraremos juntos os cadarços do sol para que caia a tarde e sejamos poetas também à noite, e chamaremos a noite de criança porque nos derreteremos em pequenos clichês, e nos deitaremos poetas porque somos verticais demais e temos mais vértebras nas colunas do que essas pessoas curiosas nos espiando pela fechadura da porta como aqueles vinte poemas engavetados loucos para entrar em cena.
6 comentários:
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"eu o sorrio abraçando"
és ENCANTADORA!
preciso plantar algumas flores poetas
Como é bom ser fora de si em si mesmo!
Abraços, bons caminhos...
feliz descoberta.
Mariana, um amigo em comum me passou seu blog e já levei a primeira bofetada no coração ao ler esse texto. Que alegria! =)
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