os olhos

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há um potencial eufôrico no parque vazio

todos os olhos vesgos de todos os poetas estão lá

alguns se atiram em minha direção

é claro que eu me assusto e recoloco-os no lugar de onde saíram

se eu chegasse com estes olhos em casa

não sei

não sei se meu cão os receberia amigavelmente

são olhos

são dos poetas os olhos que brincavam no parque

não saberia como pô-los para dormir

- e se não dormissem?

como eu dormiria?

dar-lhes-ia um beijo de boa noite

boa noite walt withman

boa noite bioy casares

são os olhos vesgos dos poetas

por que não os deixei em paz

brincando vesgos naquele parque?

estação

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lembro um dia ter dito palavras comuns. à senhora que, enquanto me olhava, esperava um ônibus e um assunto, perguntei: - será que os dragões existiram mesmo? ela disse ter visto muita lagartixa demais de crescida, quando visitava seu irmão. - Manoel vivia num sítio pra dentro do Mato Grosso, lá onde quando o bicho fala, a pessoa cala.

a coisa hoje é toda estranha: quando não tem palavra não falo e pronto. mas tem vez que vem palavra feito abelha com medo assombração, rodamunho que chicoteia cabelo de saci, lebre morta de beira de estrada. e nessas horas eu fico pensando se eu também não era do Mato Grosso...

consulta de poesia

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me vejo sentada em frente a um velho de velhas mãos de poesia das noves dobras mundo. ele me pergunta sobre a origem do voo das garças, mas eu não sei de qual garça ele está falando, nem se seus olhos são brancos e caso sejam, se isso os impediria de serem retos e também delicados. um enorme raio de sol atravessa seu corpo, fica opaco o coração, alaranjado, gramíneo, nítido como um caqui. ele está em um banco de praça pública (talvez a garça fosse um pombo podre) sentado sobre um cadáver que lhe esquenta a bunda com o calor de quem se despede. eu suplico que me conte mais sobre a poesia
antes da morte
antes que ele morra
antes da minha morte
antes que não sobre nada além de um poema incompleto, um amor que faria sucesso, três borboletas de cor amarela ou desconhecida pelos homens sem fé.

talvez um tanka

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tatuaria


vento de outono
na pele


- se pudesse

filosofia de vida

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um poema de Bruno Ribeiro, em "Antologia da Noite em Claro"


troco a caverna de Platão
por uma noite no cafofo de Dalva.

desmar

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arrastava o mar com o objeto oculto de fazer sombras. era dona de um ou três rios, não porque os quisesse pra ela. era devoção dos peixes em sonhos dentro do rio. o canto da cauda de peixe de nome esquecido pressionava o lado mais vertical dos olhos dela.


tinha choro simples. e feliz.

que perfume

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li numa parede
o pesadelo das pedras perfumadas

duvidei

experiementam, os anjos, a vida pelas guelras?

sapos são passíveis de poesia?

se o sol se põe mais cedo, cavalos se agacham como lebres?

a sala de visitas
mais uma vez

vazia

cedia lugar às palavras.