o amor estendeu-me as mãos

o amor estendeu-me as mãos como um cego
desorientado a um passo da porta de casa
nos sentamos o cego e eu na imensidão da
esperança motivados pelo sinal de um vizinho
rapidamente você se apresentou, entregou
o cego à casa azul ao lado da sua e quanto
a mim deitou-me nas pétalas de seu coração







cobri-me com mil folhas

cobri-me com mil folhas
das árvores de Abril
Meu Amor incendiou todas elas
e no oceano de seu coração
ofereceu-me alívio
Meu Senhor, serás tú também
a rocha quente     do desafogo?
depois de Ti      Mariana não se contenta
com migalhas de areia

bebemos da mesma taça

à Júlia Sodini

bebemos da mesma taça
o perfume de minhas palavras
está no seu hálito    que me embriaga
entralhei no seus ossos
Mariana       para ir contigo
para além da morte
tudo mais viverei ao lado
    da Mais Bonita Mulher

ignoras que vives

à Natália Gregorini

ignoras que vives
sob o mesmo céu dos feridos
estes que já dançaram ao redor
do amor     e dançam ainda
duvidei das pontes, das palavras,
dos encontros      a Senhora
de Mariana a levou para
as nuvens e a deitou
como tinta     no papel

recorte de tela de Natália Gregorini

dedal

às minhas irmãs que cosem o futuro

o que quer um homem
senão dobrar uma mulher?

mas mulheres são linhas
     e agulhas.

não se dobra uma linha
     sem dar-lhe um nó.

sem se ferir
     não se dobra um agulha.

velha árvore, árvore violão

velha árvore, árvore violão
engendra no vento uma folia
que acorde meu coração

velha ávore, árvore violão
dá-me sombra de dia
como verde à escuridão

dá-me um tertúlia de folhas
mais macia que a melhor cama
dá-me amora como quem ama
e amor como faz canção

velha árvore, árvore violão
dá-me mil beijos silvestres
dá mais lenha ao desastre
que este fogo é de paixão